sábado, 28 de fevereiro de 2009
Na luz da candeia

Havia uma candeia acesa na noite, sobre o estrado de madeira encostado contra a parede branca. A sua luz era fraca mas mostrava entre nós o brilho dos espaços e recorte profundo dos perfil até aonde a sombra se consumia no negro da noite.
À luz da candeia, noite adentro acesa, vimos todo o murmúrio aceso de estrelas derramado acima na vastidão do espaço. São como pontos brilhantes acesos num tecido de azul nobre muito muito escuro. Na ponta desse tecido vagueavam o traço de um cometa rasgando o céu e o limbo branco negro de uma nuvem - provavelmente, a causa de um ou outro trovão que se repetia como um eco e livre bater espontâneo da noite.
Sobre o toldo montado nos ramos da árvore viva, os gatos passeavam de telhado em telhado, aparecendo e desaparecendo seu perfil nas chaminés trabalhadas.
Certamente, falámos, mas eu não me recordo de nada, pois à luz da candeia, as noites decompunham-se das suas palavras e das palavras dos outros. Mas, lembro-me de escutar o abismo do silêncio e os sons da noite derivados. Sossegadamente.
E, quando a última gota do precioso líquido dourado escorreu pelo fio da candeia, se fez a noite pura e de si carregada. Foram os sons e o silêncio e os nossos olhos cada vez vendo, mais e mais profundo, até ao encontro do princípio limpo e claro do mundo.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
A utilidade passageira das coisas

Se as coisas tivessem mais que uma utilidade, nenhuma delas seria senão do que passageira e decadente - esperando que as viessem reciclar. Assim sendo, a utilidade das coisas está sujeita ao seu fim e ao seu princípio - e a alguém com inteligência para as utilizar.
Com consciência, tudo se fez no sentido de ser útil - pois tudo o que não o é trata-se de uma desconcertante perda de tempo. Se já de si a vida é tão curta, custa perder tempo no que não damos valor ou empregamos por não útil. É esta, também, a lei da conservação da energia - princípio básico do nosso universo.
Para não desenhar, nem desejar, grandes paralelismos, fico-me pelo essencial e descrevo aqui que a imponente epopeia das coisas se desejou não pela sua grandeza, nem pela sua minudência de pormenores, mas sim, pela sua utilidade.
Contudo, essa utilidade é passageira e, por vezes, não visível. E como tudo o que é prometido com vista a um fim, resta-nos, enfim, esperar. Não há nada mais humilde que isso.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Fica
Fica. Fica porque teu retrato ainda não está desenhado contra a luz forte que entra janela adentro e inunda os meus espaços.
Fica. Fica porque é em ti que eu me encontro e renasce de novo em mim a vida.
Fica, porque os espectros consomem a beleza das coisas e tu trazes signo livre, a liberdade dos céus azúis e dos oceanos imensos escritos de luz.
Fica, porque somente a tua fonte é maior que a minha sede - somente a alegria pode suportar a dureza dos tempos e a cidade sem alma, cinzenta. Somente a ti eu desejo caminhar os passos que tenho a caminhar lado a lado, todas as areias do deserto. Ouvir as mais doces histórias e melodias de terras de encantar, longuínquas e sempre no nosso pensamento, imaginadas e perpéptuas.
E se suportar é o tempo mais comprido, tudo o que se abre daqui em diante é um admirável mundo novo.
Pois se todo o tempo fosse uma busca interminável, eu deixaria que o adjectivo mudasse e se transformasse com ele o meu coração ao sabor dos teus elementos, dos teus espaços e do teu respirar. Para que pudesse tomá-lo em todas as manhãs o despertar, a tua presença.
Fica e toma de assalto o meu mundo. É teu.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Adele, make you feel my love
When the rain
Is blowing in your face
And the whole world
Is on your case
I could offer you
A warm embrace
To make you feel my love
When the evening shadows
And the stars appear
And there is no one there
To dry your tears
I could hold you
For a million years
To make you feel my love
I know you
Haven't made
Your mind up yet
But I would never
Do you wrong
I've known it
From the moment
That we met
No doubt in my mind
Where you belong
I'd go hungry
I'd go black and blue
I'd go crawling
Down the avenue
No, there's nothing
That I wouldn't do
To make you feel my love
The storms are raging
On the rolling sea
And on the highway of regret
Though winds of change
Are throwing wild and free
You ain't seen nothing
Like me yet
I could make you happy
Make your dreams come true
Nothing that I wouldn't do
Go to the ends
Of the Earth for you
To make you feel my love
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
A Casa
Era uma casa enorme, ampla e cheia de luz - de janelas corridas parede por parede, vista por vista, desde a copa das árvores até ao azul intenso e perpétuo do oceano mar. A casa estava ligada a estes elementos por um vínculo natural e como todas as coisas que são mais naturais, invisível. As suas paredes libertas do tempo mantinham-se brancas e neutras, encimadas por um telhado de cerâmica reluzente. Na parede de entrada estava um painel de azulejos onde as crianças se encostavam para experimentar a frescura da casa na sombra do meio-dia estival. Por comparação entendiam as diferenças das coisas e atreviam-se a sentir essas mesmas diferenças - areia molhada areia seca, sombra sol, luz noite. A floresta era imensa e imensa eram nela toda a espécie de pássaros, que com os seus trejeitos musicais compunham uma sinfonia que ascendia com a maresia ao mais alto dos astros. O vento que as trazia era suave e doce como vinho das terras da Casa. Nele se colheram os frutos e dele se fez o bom vinho. O que nasce e renasce todos os anos e que o senhor da Casa oferece apenas aos amigos mais chegados. Os amigos por sua vez ofereciam a sua companhia e o prazer de uma boa leitura ou outra peça cultural que traziam da cidade. As noites eram celebradas com as candeias e os seus habituais companheiros - os insectos nocturnos e o barulho do mar próximo. Todas as noites de verão a lua cheia ou crescente levantava-se do horizonte lânguida e preguiçosa e o senhor da Casa gostava de lhe associar algo de místico - e porém nada quimérico e sempre fantástico e magnético. Tocavam violino e piano enquanto a Lua ascendia seu percurso simétrico pelas águas do mar iluminando, as carreiras de vinha serra por colina, até ao alpendre da Casa. As noites eram, assim, lânguidas e mágicas, e o tempo passava com prazer. Os amigos do senhor da Casa regressavam tarde ou dormiam nos quartos de hóspedes onde um raminho de lavanda era imaculadamente colocado sobre as camas dos hóspedes. E a perfeição era atingida pela simplicidade das cores e das formas que o pequeno, mas soberbo jarro de água, imanava ao ser atravessado pela luz fraca do candeeiro. As crianças brincavam fazendo jogos de sombras e quando era a hora de deitar era lhes dado duas bolachas e um copo de leite quente, generosamente servido na cozinha. Esta, dizer-se-ia, a primeira e a mais central das divisões da casa, dispunha de tachos e panelas cobreados e de fornos antigos que culminavam no apogeu de uma chaminé branca e limpa como a candura mais branca de uma perfeição distinta. Só quando era noite profunda ouvia-se o mar lento e ancestral comunicando a sua presença às coisas e elas respondiam-lhes, sossegadamente, no meio da noite.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Luz

«Levantada do rio, ergue-se a cidade,
Alvor do espaço branco nú.
Aonde, por onde alcanço o olhar,
a luz dispersa e imensa,
consome inteira e por graça
o Oceano aberto luz
que mergulha em azul oriente.
Por seu azul infinito,
É seu silêncio pleno,
Antiquíssimo.
Quando me aproximo, Lisboa,
Vejo o mistério do presente desligado
E branco o milagre, ligeiro desgarrando
A memória livre das coisas.»
Diogo Filipe G.S. Quirino, in «Poesias»
domingo, 15 de fevereiro de 2009
O sal das feridas
É daqueles momentos sem palavras em que naufragamos e ficamos vazios, a luz vai-se apagando lentamente... lentamente, até a escuridão das águas cobrir de azul o rosto naufragando. Libertam-se bolhas de ar mas a tua respiração cessa e o teu corpo não se mexe - passivo cais direito ao abismo. Não lutas e cais cada vez mais fundo para acordares no momento a seguir. Surpreendido dás por ti na areia branca salvo por um mito qualquer. Mas é quando contemplas o céu estrelado que compreendes o vazio que está em ti.
E o mais doloroso é que o vazio é branco e não o consegues exprimir sob a forma de palavras.
Então o vazio abre-se como uma ferida e todo o teu corpo parece perder-se em sangue. A ferida não se vê mas sente-se. O vazio não é branco é dor. Parece que não chegas para todo esse sofrimento. Mas eis que te levantas e prossegues o teu caminho. Não sabes o que te forçou a andar. Talvez tenha sido o instinto. Talvez a esperança que um dia apareça algo que cure o sal das tuas feridas. Talvez venha num desassossego, talvez venha completo e íntegro. Mas isso tu nunca o saberás pois a tua essência é feita de vento. E na esperança tu caminhas até vir o tempo certo.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Seguir e Ser
Quando te calam, tu não te resignas.
Quando espreitam e denunciam o teu íntimo, tu não te condenas.
Quando te odeiam e te invejam pela fímbria de um sorriso falso, tu não te perdes.
Porque a vida é mais feita pelo menos e todo o universo conspira contra nós, desenhaste no teu mundo, o teu equilíbrio perfeito onde efémero ele só o é se assim o permitires que seja.
Não te derrubaram as altas torres, nem calará tua voz o vento que escorraçará teimoso tuas palavras à luz aguda do meio-dia. Somente pleno será o dia cheio de luz e a cidade o palco do teu mundo e todos nós, seres humanos cientes da sua condição e livres.
Por isso quando te calam sem direito, tu não obedeces e segues - pois equilibrado é o teu mundo. Tu não te resignas ao que o teu direito, o teu estar, a tua vida, o teu ser, te permitem ser - és mais do que eles podem dizer sobre ti. Mil vezes mais. Tu não desistes e segues e é essa a tua condição - porque segues em frente mesmo quando os outros te dizem «não».
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Foi a mão de Deus

Foi como a mão que Deus fez passar nas águas, assim que nelas poisou seu corpo destilou-se inteiro e nu no elemento líquido, desfeito resignou-se à sua condição, como uma onda vibrou até atingir a branca areia e se desfez em espuma. E a espuma em vento e o vento em coral bailou e sossegou como um sortilégio a magia eterna dos pinheiros, que altos como mastros apontam para o céu.
Assim foi connosco, o encantar e a magia ignorada da sorte que nos fez perder de ilusões e quimeras, teatros gregos enormes vibrantes de multidões, magnéticos de histórias e de romances, para nos perdermos sob o olhar atento da luz da lua na planície morta da noite.
Foi o estio quente que queimou as folhas da palma e a luz da candeia acesa que sossegou a alma tenebrosa da noite e o oceano milagroso, miríade de estrelas luz difusa e penetrante - trazida à terra depois do tempo em que tempo a originou na face de outra estrela. Foi o teu sossegar e alegre (quanto assim) que desapareceu na quina da casa arrastando consigo a luz pelos contornos ávidos e brancos das paredes soltas e deslizando se perdeu, rocha por rocha, até ser engolido como uma única imagem que era na rebentação calma e ordenada que fluía na maré.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Escrever

Escrever por escrever. Escrever porque há um sentido.
Escrever só porque é necessário escrever aqui todas as amarguras e para que, em seguida, me levante do chão e contemple infinito o céu.
Se não é preciso que a poesia seja verso, então não é preciso mais para que todas as regras se quebrem.
Mas muitas ficam de fora das palavras... a verdadeira essência do que queremos dizer é tão dura que a prosa é infinitamente pequena para as albergar e a poesia, infinitamente grande para a conter.
E depois das coisas ... o mar
Depois de tudo acalmar e poisar entre nós a poeira do firmamento, acorremos como que sem sentidos, dunas e pinheiros, até encontrarmos a planície suave e líquida do mar. Nela poisámos os olhos e naufragámos como dois astros errantes.
Como um deus, passou depressa o tempo. Efémero como uma miragem, seguimos o percurso da areia molhada na linha que a divide da areia seca. A maresia era incomum nessa noite e levantava-se entre nós um manto de nevoeiro ténue, débil, profundo de ervas marinhas. Não nos perdemos, mas perdemos a presença do tempo. Cada coisa aparecia como se esperasse ser nomeada, então os gestos tomaram e fundaram nossa casa. Só longe os pinheiros sussuravam seu eterno e milenar cântico enquanto ia rebentando uma onda à costa, suavemente.
E fomos encontrando, tesouro por tesouro, todas as riquezas do mar. Búzios, coral, estrelas do mar e nós de marinheiros... foi assim a noite até que o sol foi tomando a riqueza das coisas, modelando as nuvens e as sombras. E tudo surgiu entre nós como um mundo novo...
Como um deus, passou depressa o tempo. Efémero como uma miragem, seguimos o percurso da areia molhada na linha que a divide da areia seca. A maresia era incomum nessa noite e levantava-se entre nós um manto de nevoeiro ténue, débil, profundo de ervas marinhas. Não nos perdemos, mas perdemos a presença do tempo. Cada coisa aparecia como se esperasse ser nomeada, então os gestos tomaram e fundaram nossa casa. Só longe os pinheiros sussuravam seu eterno e milenar cântico enquanto ia rebentando uma onda à costa, suavemente.
E fomos encontrando, tesouro por tesouro, todas as riquezas do mar. Búzios, coral, estrelas do mar e nós de marinheiros... foi assim a noite até que o sol foi tomando a riqueza das coisas, modelando as nuvens e as sombras. E tudo surgiu entre nós como um mundo novo...
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