sábado, 28 de fevereiro de 2009

Na luz da candeia


Havia uma candeia acesa na noite, sobre o estrado de madeira encostado contra a parede branca. A sua luz era fraca mas mostrava entre nós o brilho dos espaços e recorte profundo dos perfil até aonde a sombra se consumia no negro da noite.

À luz da candeia, noite adentro acesa, vimos todo o murmúrio aceso de estrelas derramado acima na vastidão do espaço. São como pontos brilhantes acesos num tecido de azul nobre muito muito escuro. Na ponta desse tecido vagueavam o traço de um cometa rasgando o céu e o limbo branco negro de uma nuvem - provavelmente, a causa de um ou outro trovão que se repetia como um eco e livre bater espontâneo da noite.

Sobre o toldo montado nos ramos da árvore viva, os gatos passeavam de telhado em telhado, aparecendo e desaparecendo seu perfil nas chaminés trabalhadas.

Certamente, falámos, mas eu não me recordo de nada, pois à luz da candeia, as noites decompunham-se das suas palavras e das palavras dos outros. Mas, lembro-me de escutar o abismo do silêncio e os sons da noite derivados. Sossegadamente.
E, quando a última gota do precioso líquido dourado escorreu pelo fio da candeia, se fez a noite pura e de si carregada. Foram os sons e o silêncio e os nossos olhos cada vez vendo, mais e mais profundo, até ao encontro do princípio limpo e claro do mundo.

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