sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A Casa


Era uma casa enorme, ampla e cheia de luz - de janelas corridas parede por parede, vista por vista, desde a copa das árvores até ao azul intenso e perpétuo do oceano mar. A casa estava ligada a estes elementos por um vínculo natural e como todas as coisas que são mais naturais, invisível. As suas paredes libertas do tempo mantinham-se brancas e neutras, encimadas por um telhado de cerâmica reluzente. Na parede de entrada estava um painel de azulejos onde as crianças se encostavam para experimentar a frescura da casa na sombra do meio-dia estival. Por comparação entendiam as diferenças das coisas e atreviam-se a sentir essas mesmas diferenças - areia molhada areia seca, sombra sol, luz noite. A floresta era imensa e imensa eram nela toda a espécie de pássaros, que com os seus trejeitos musicais compunham uma sinfonia que ascendia com a maresia ao mais alto dos astros. O vento que as trazia era suave e doce como vinho das terras da Casa. Nele se colheram os frutos e dele se fez o bom vinho. O que nasce e renasce todos os anos e que o senhor da Casa oferece apenas aos amigos mais chegados. Os amigos por sua vez ofereciam a sua companhia e o prazer de uma boa leitura ou outra peça cultural que traziam da cidade. As noites eram celebradas com as candeias e os seus habituais companheiros - os insectos nocturnos e o barulho do mar próximo. Todas as noites de verão a lua cheia ou crescente levantava-se do horizonte lânguida e preguiçosa e o senhor da Casa gostava de lhe associar algo de místico - e porém nada quimérico e sempre fantástico e magnético. Tocavam violino e piano enquanto a Lua ascendia seu percurso simétrico pelas águas do mar iluminando, as carreiras de vinha serra por colina, até ao alpendre da Casa. As noites eram, assim, lânguidas e mágicas, e o tempo passava com prazer. Os amigos do senhor da Casa regressavam tarde ou dormiam nos quartos de hóspedes onde um raminho de lavanda era imaculadamente colocado sobre as camas dos hóspedes. E a perfeição era atingida pela simplicidade das cores e das formas que o pequeno, mas soberbo jarro de água, imanava ao ser atravessado pela luz fraca do candeeiro. As crianças brincavam fazendo jogos de sombras e quando era a hora de deitar era lhes dado duas bolachas e um copo de leite quente, generosamente servido na cozinha. Esta, dizer-se-ia, a primeira e a mais central das divisões da casa, dispunha de tachos e panelas cobreados e de fornos antigos que culminavam no apogeu de uma chaminé branca e limpa como a candura mais branca de uma perfeição distinta. Só quando era noite profunda ouvia-se o mar lento e ancestral comunicando a sua presença às coisas e elas respondiam-lhes, sossegadamente, no meio da noite.

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