domingo, 15 de fevereiro de 2009

O sal das feridas


É daqueles momentos sem palavras em que naufragamos e ficamos vazios, a luz vai-se apagando lentamente... lentamente, até a escuridão das águas cobrir de azul o rosto naufragando. Libertam-se bolhas de ar mas a tua respiração cessa e o teu corpo não se mexe - passivo cais direito ao abismo. Não lutas e cais cada vez mais fundo para acordares no momento a seguir. Surpreendido dás por ti na areia branca salvo por um mito qualquer. Mas é quando contemplas o céu estrelado que compreendes o vazio que está em ti.

E o mais doloroso é que o vazio é branco e não o consegues exprimir sob a forma de palavras.

Então o vazio abre-se como uma ferida e todo o teu corpo parece perder-se em sangue. A ferida não se vê mas sente-se. O vazio não é branco é dor. Parece que não chegas para todo esse sofrimento. Mas eis que te levantas e prossegues o teu caminho. Não sabes o que te forçou a andar. Talvez tenha sido o instinto. Talvez a esperança que um dia apareça algo que cure o sal das tuas feridas. Talvez venha num desassossego, talvez venha completo e íntegro. Mas isso tu nunca o saberás pois a tua essência é feita de vento. E na esperança tu caminhas até vir o tempo certo.

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